15 de outubro de 2014

Dilma e Aécio fazem debate na Band em clima quente. Sobraram acusações e faltaram propostas

O debate promovido pela Band na noite de ontem (14) entre Dilma e Aécio foi sem dúvida um dos confrontos mais acirrados dos últimos anos. As regras simples estabelecidas e a interferência mínima de Ricardo Boechat, o mediador, favoreceram enormemente o enfrentamento direto entre os dois candidatos à Presidência e garantiu a permanência da emissora em primeiro lugar na audiência nacional durante mais de dois terços do evento. Ao contrário dos debates globais, carregados de sorteios com bolinhas,temas definidos e o pavão Bonner, o que mais se viu foi espaço para a boa e velha pancadaria verbal. Era candidato contra candidato, com temas livres e tempo razoável para perguntar, responder, replicar e treplicar. Tudo como deve ser.
Foram oferecidos regras e campo para uma "final de Libertadores". Pena que os candidatos tivessem aquela feição de "times de fim de semana". Mesmo assim, o debate foi mais emocionante que a maioria dos jogos do Brasil na Copa do Mundo e gerou mais audiência para a emissora também.
Fosse um dos candidatos bom debatedor - que saudades do velho Leonel Brizola! - e sairia consagrado. Como Dilma e Aécio são apenas "mais ou menos", não houve um vencedor inconteste. Dilma saiu-se um pouquinho melhor. Claro que os correligionários de ambos cantarão vitória. É do jogo. Mas, Dilma por pelo quatro momentos deixou Aécio atônito e meio fora do eixo.
Dilma fez Aécio balançar ao falar dos desvios de verbas para a Saúde em Minas - coisa de mais de R$ 7 bilhões; sobre nepotismo - pelo menos seis parentes de Aécio, entre eles a irmã Andreia Neves, exerceram ou exercem cargos públicos no governo mineiro; no aeroporto construído por Aécio nas terras de um seu tio e fez a plateia prender a respiração quando tocou na questão da violência contra a mulher. Este último item tem razão de assustar o candidato tucano.

Aqui vale um parêntese.
A vida pessoal de Aécio - definido por um grande amigo como alguém que "gosta de viver a 200 por hora", tem sido tabu nesta campanha. A verdade é que Aécio vez por outra envolve-se em situações bem mais que embaraçosas. Já foi pego, por exemplo, em mais de uma blitz da Lei Seca dirigindo embriagado. Numa dessas ocasiões recusou-se a fazer o teste do bafômetro e teve habilitação suspensa. Em outra oportunidade foi flagrado novamente dirigindo após ingerir bebida alcoólica e apresentou a habilitação sem validade. Foi multado e graças a isso descobriu-se que o carro de luxo que dirigia estava em nome da rádio Arco-Íris, de Minas, que tem como proprietária nominal a irmã Andreia. Apesar de pequena, a emissora possui outros 11 carros de luxo e recebe verbas publicitárias do governo mineiro.
Falando em meios de comunicação, o relacionamento de Aécio com a imprensa merece um capítulo à parte. Durante seu governo em Minas, conseguiu passar incólume mesmo diante de denúncias sérias e, dizem, reage muito mal às críticas. Recentemente, Aécio pediu a retirada de mais de 60 perfis no Twitter por, supostamente, fazerem "falsas denúncias" contra ele nas redes sociais. Diversos jornalistas mineiros reclamam de interferência direta para silenciar críticos. Até mesmo o diretor de jornalismo da Globo Minas teria sido removido por, aparentemente, desagradar o então governador. Tudo teria sido orquestrado pela onipresente Andreia Neves, a primeira irmã e considerada super-poderosa em Minas.
Além disso, tem a proximidade de Aécio com Zezé Perrella, o controvertido ex-presidente do Cruzeiro, clube do qual Aécio é torcedor. Perrella é senador por Minas desde 2011, assumindo a vaga após a morte de Itamar Franco do qual era suplente, escolhido por Aécio. Recentemente, em novembro de 2013, um helicóptero da família Perrella foi apreendido com quase meia tonelada de cocaína. Descobriu-se que além de pó, a aeronave costumava transportar figurões mineiros e que o combustível seria bancado com dinheiro público. Perrella também teria sido beneficiário de uma operação considerada ilegal durante a concessão dos direitos de exploração dos restaurantes que atendem a Cidade Administrativa, maior obra de Aécio. Perrella apoia Aécio em Minas.
No que diz respeito à violência contra a mulher, Aécio foi notícia em 2009 ao agredir com socos e empurrões sua mulher durante um evento festivo no Hotel Fasano, no Rio de Janeiro. Noticiado pelo jornalista Juca Kfouri, a agressão foi desmentida pela assessoria de Aécio, mas o jornalista manteve a informação e, curiosamente, Aécio não o processou. Considerando o nível do debate, muitos pensaram que Dilma lembraria o episódio, mas a presidente mudou de rota e falou da Casa da Mulher Brasileira, projeto do Governo Federal que vai agregar em um só espaço todos os órgãos envolvidos na defesa dos direitos das mulheres.
Aécio, por outro lado, foi duro com Dilma e chegou a chamá-la de "leviana". O tucano marcou pontos ao mostrar que o Bolsa Família, principal programa de enfrentamento da miséria feito por Dilma e Lula, tem DNA tucano. Apesar de Dilma argumentar que a teoria de Aécio é mera "fabulação", o tucano mostrou a lei que cria o Bolsa Família. Lá está dito que o programa é o resultado da reunião de outros programas de transferência de renda, todos criados por FHC, o tucano-mor. Além disso, um discurso do petista-mor, Luís Inácio Lula da Silva, cita como "pai" da ideia de agregar todos os benefícios em um só programa, o tucano e atual governador goiano Marconi Perillo.
As críticas à gestão da Petrobras e os escândalos envolvendo a estatal também renderam bons momentos ao tucano. Sendo Dilma inatacável do ponto de vista pessoal, o melhor flanco de ataque são mesmo as seguidas denúncias envolvendo o alto escalão do governo federal e os partidos que o apoiam. Aécio chegou a ressuscitar o slogan lacerdista "mar de lama", para definir o governo de Dilma. O tucano afirmou que "quase todas as suas obras estão sob investigação e apresentam irregularidades".
A crítica à condução da economia também foi explorada por Aécio. "Inflação descontrolada", "crescimento zero", "piores índices entre os países emergentes", "crise de confiança", foram algumas das formulações usadas pelo tucano para definir a atuação de Dilma e Mantega no campo econômico. Aécio prometeu restaurar a confiança internacional do Brasil e se disse o "libertador" do Brasil. "Por onde ando, as pessoas pedem para que eu as liberte do jugo do PT", chegou a afirmar.
No frigir dos ovos, de propostas concretas pouco se falou. Dilma chegou a listar algumas ações que pretende realizar nos próximos quatro anos - programa Mais Especialidades, na Saúde e construção de creches e ampliação do Pronatec, na Educação. Já Aécio, mostrou-se contrário "a tudo que aí está", garantiu que vai manter o que prestar e que vai governar "para unir o Brasil e os brasileiros". Assim, o debate da Band serviu mesmo como uma espécie de introdução. Espera-se que no próximo debate, amanhã (16) no SBT, os candidatos afinal informem ao distinto público o que farão e como farão. Aguardemos.

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