6 de dezembro de 2011

"Hidrovia é estratégica para o Brasil", diz Ítalo em entrevista exclusiva


O empresário e político marabaense Ítalo Ipojucan (acima), presidente da Associação Comercial e Industrial de Marabá (Acim), concedeu longa entrevista ao jornal O Carajás. Publicada na edição que circulou no dia 24 de novembro, a entrevista aborda assuntos como hidrovia, Alpa/Aline, desenvolvimento da região, entre outros.
Veja a primeira parte a seguir.

Entrevista com Ítalo Ipojucan 
“A Hidrovia não interessa apenas para Marabá. Ela é estratégica para o Brasil” Por: Wilson Rebelo

Certas entrevistas são pratos indigestos. O entrevistador precisa fazer contorcionismos extremos para fazê-las render algo aproveitável e torna-las palatáveis aos leitores. Outras, contudo e ainda bem, fluem com naturalidade e sem atropelos; são pratos de degustação fácil e necessária. A entrevista a seguir é, claramente, deste segundo tipo.
Na tarde desta terça (15), Ítalo Ipojucan de Araújo Costa, presidente da Associação Comercial e Industrial de Marabá (ACIM), concedeu a entrevista que segue abaixo. Era nosso objetivo apurar quais ideias fazem a cabeça do presidente da influente ACIM e pré-candidato do PMDB à prefeitura de Marabá.
Como os leitores poderão constatar, Ítalo não padece da falta de ideias. E, aproveitando o dia da Proclamação da República, cabe aqui afirmar que todas elas são republicanas. Isso, convenhamos, é muito mais do que se pode dizer da grande maioria dos líderes que surgem nestes tempos rombudos.
Entre um compromisso e outro de sua agenda sempre lotada e antes de embarcar para Belém, Ítalo conversou por cerca de duas horas, e com exclusividade, com O Carajás.
Falou-se de tudo. Criação do Estado do Carajás, Hidrovia Araguaia-Tocantins, Projeto Alpa/Aline, presente e futuro de Marabá. O cardápio variado reflete, em grande medida, a personalidade do entrevistado.
Empresário de sucesso que não se omite diante dos desafios da região que mais cresce no País, Ítalo sabe que apenas a união de todos em torno dos objetivos maiores pode alavancar o desenvolvimento sustentável da região.
Otimista, ele mostra que com boas ideias e trabalho duro é possível fazer de Marabá e do futuro Estado do Carajás um lugar de paz e desenvolvimento. Leia agora a primeira parte da entrevista.
Boa leitura a todos.

O Carajás – Como tem sido para o sr. conciliar a vida de empresário, a presidência da ACIM e as atividades na política partidária?
Ítalo – É um exercício para poucos. Porque realmente são demandas que absorvem completamente. À medida que você estabelece laços mais fortes com a comunidade, todos os diferentes aspectos que envolvem o desenvolvimento da região acabam tornando-se parte de seu dia-a-dia. Assim, onde eu estiver acabo representando todos esses diferentes interesses. Tempos atrás, tive que conciliar a atividade empresarial com a atuação frente à vice-prefeitura de Marabá; a seguir, novamente me vi obrigado a conciliar a vida particular com a presidência do Conselho Deliberativo do SEBRAE; hoje, além da presidência da ACIM, tenho as atividades partidárias no PMDB e colaboro com a frente a favor de Carajás. Devo dizer a você que não é fácil, mas, com o tempo a gente acaba aprendendo a equilibrar as coisas. Dá para conciliar porque as questões que envolvem os interesses da comunidade de Marabá e região. Este momento ímpar que nós atravessamos e que é extremamente favorável – desde que se cometam as ações necessárias para garantir nosso desenvolvimento e capturar as oportunidades – acabam enriquecendo o debate e nos contamina e envolve de tal maneira que onde estou, lá está o meu escritório. Assim, acabo resolvendo os problemas decorrentes da atividade empresarial e participando das discussões políticas, tudo ao mesmo tempo.
O Carajás – O sr. fala de discussões políticas. Isso não seria cansativo para alguém tão ligado ao mundo empresarial?
Ítalo – Não. De forma alguma. Porque, para mim, a discussão política precisa ser proativa. Eu sou focado nisso. Não vejo na política atual espaço para discussões ociosas. Toda discussão precisa ter como base a criatividade, a honestidade e a busca de soluções para os problemas do momento. Nada de discussões que nos façam retroceder ou façam a “carruagem andar para trás”. Precisamos é avançar; crescer e fazer crescer. Olha, eu parto da premissa que qualquer pessoa que esteve ou está à frente de um órgão da administração pública, busca sempre fazer o melhor. Não passa pela minha cabeça que o cidadão ocupe um cargo público com a intenção de fazer o errado ou o malfeito. Acredito que todos querem acertar. Eventualmente, não se consegue fazer o certo ou o melhor. Aí, precisamos ver o que houve de positivo e valorizar isso. Mas, precisamos também aprender com os erros, para corrigi-los. Ao longo da minha vida pública sempre me pautei pela certeza que temos que apoiar as boas iniciativas e contribuir para que dê certo. Lembrando sempre que as necessidades da coletividade estão em primeiro lugar. Mais importante que qualquer um de nós é o atendimento das demandas da população. Assim, não vejo a política pela ótica do personalismo. Política é, acima de tudo, ação coletiva, de agregação de pessoas e valores. Por isso, não me cansa, de forma alguma, o debate político. É esse debate que possibilita o desenvolvimento.
O Carajás – Recentemente, o presidente da Aline afirmou que só existe espaço para uma planta técnica de laminação de aço no Norte-Nordeste. O Governador do Ceará, Cid Gomes, anunciou que no próximo dia 28 começam as obras das instalações industriais da CSP (Companhia Siderúrgica de Pecém). Enquanto isso, a Aline ainda está muito longe de iniciar sua implantação. Podemos dizer que o Projeto Aline “subiu no telhado”?
Ítalo – Eu acredito que não. Mas, é preciso que tenhamos muito cuidado. Veja, todas as informações que temos das empresas responsáveis pelos projetos Alpa e Aline, nos garantem que a implantação de ambos está definida e será em Marabá. Mas, eu tenho algumas considerações a fazer. Quando nós tivemos a visita do governador do Estado, apresentamos uma pauta contendo os assuntos considerados estratégicos para o desenvolvimento de Marabá e região sob a ótica da ACIM. Mostramos ao governador o cenário que está estabelecido para a região, os diversos empreendimentos previstos para Marabá e o timing desses empreendimentos. Alguns deles apresentam forte dependência de ações de governo (estadual ou federal). Esta dúvida, diga-se pertinente, apareceu em função de algumas ações, acordadas principalmente com o governo federal, não terem sido realizadas.
O Carajás – O sr. está falando da Hidrovia Araguaia-Tocantins?
Ítalo – Sem dúvida. A hidrovia é uma obra extremamente importante. E não apenas para nossa região. Trata-se de um eixo de desenvolvimento que causará impacto em todo o setor produtivo nacional. É um projeto muito arrojado que dará uma nova dinâmica à logística no País. A hidrovia impactará positivamente o oeste baiano, o Estado de Goiás, parte do Mato Grosso, Tocantins, sul do Maranhão e Piauí, permitindo que toda a produção dessas regiões passe pelo Pará e saia através do porto de Barcarena. Isso é fantástico. É a grande alternativa de transporte capaz de dar competitividade à produção nacional, seja ela oriunda do agronegócio ou da indústria. Para nós foi certamente muito frustrante ver terminadas as eclusas de Tucuruí e os recursos necessários para as obras de derrocagem do rio Tocantins serem retirados do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Após mais de 25 anos de construção e bilhões de reais gastos com as eclusas, não dá para entender porque essa obra tão estratégica pode ser interrompida por falta de pouco mais de R$400 milhões. Não faz sentido. Acabou tornando-se um gargalo que realmente ameaça o desenvolvimento de toda região.
O Carajás – O Sr. não acha que a Aline pode perder o interesse pelo empreendimento em Marabá? Ítalo – Veja, a Vale vai produzir um produto bem distinto e que se adapta perfeitamente aos interesses da Aços Cearenses, controladora da Aline. Ou seja, os dois projetos se complementam. E quando nós discutíamos com o governador cheguei a alertar para outra questão. A demora em resolver o problema do “lote 11”, que permanece em discussão na Justiça e impede a conclusão das obras de terraplanagem da Alpa. A consequência disso foi o atraso nas obras civis e industriais sendo necessário reprogramar o cronograma de instalação da Alpa/Aline.
O Carajás – Outros estados conseguiram romper esses gargalos com mais facilidade... Ítalo – Sem dúvida! Veja por exemplo o que aconteceu em Pernambuco, no porto de Suape. Ali, através de ações do governo do estado, formou-se um eixo muito promissor a partir de um porto petrolífero. Houve forte investimento na melhoria e ampliação das instalações portuárias e, como resultado, desenvolveu-se um grande mercado periférico. A Bunge, gigante americana do ramo de alimentos, agronegócio e bioenergia, instalou-se em Suape. A seguir, veio a Fiat e trouxe consigo toda a gama de indústrias de peças e acessórios, além de três estaleiros. Ou seja, através da intervenção estatal, o que era um mero porto petrolífero tornou-se um poderoso indutor de desenvolvimento regional, melhorando a vida de todos em uma enorme região. Marabá tem as mesmas condições para explorar a dinâmica de sua base produtiva que foi explorada em Suape! Enquanto isso, no Ceará, em Pecém já existe um polo metal-mecânico mesmo sem que a siderúrgica, que é da Vale, tenha sido implantada. Esse projeto já estava previsto e foi inclusive anunciado pelo Murilo Ferreira, presidente da Vale. Então, a construção da CSP não preocupa.
O Carajás – Mesmo assim...
Ítalo – Mesmo assim, temos outros motivos para preocupações. Que são exatamente os gargalos da hidrovia e da demora na liberação do lote 11. Veja que esses gargalos já atrasaram sobremaneira a Alpa e, por decorrência, a Aline. A preocupação do Ian Corrêa é que atrase ainda mais e outro empreendedor decida implantar um terceiro projeto idêntico à Aline, em Suape, por exemplo. Aí, nesse caso, sim, a Aline ficaria inviabilizada. Ou seja, a Siderúrgica de Pecém já estava prevista e não atrapalha a Aline. Mas, a demora em resolver esses problemas locais, pode atrasar tanto a implantação da planta técnica de Marabá que talvez acabe incentivando outro investidor a implantar projeto similar em outro estado do norte-nordeste.
O Carajás – Neste sentido a ACIM vem se movimentando muito para pressionar pela resolução desses problemas, não? Ítalo – Era isso que ia dizer logo em seguida. Olha, esse movimento a favor da hidrovia – na verdade a favor do desenvolvimento regional – foi abraçado por nós, na ACIM e compramos essa briga para valer. Recentemente, reunimos em Marabá diversos órgãos estaduais e federais e representações de classes para discutir as formas de pressionar pela retomada dos investimentos na Hidrovia Araguaia-Tocantins. Elaboramos a Carta de Marabá que será protocolada no Senado e na Câmara Federal nos próximos dias e faremos chegar ao ministro do Transporte, Paulo Sérgio Passos, à ministra Gleisi Hoffmam, da Casa Civil e à presidente Dilma, demonstrando a urgência na retomada das obras. Entenda: Cabe à sociedade civil organizada e à classe política reivindicar e pressionar a favor da hidrovia. A Vale, apesar de beneficiada, usufruirá relativamente pouco desta obra. Os maiores beneficiários serão os produtores de todo o Brasil que passarão a ter uma alternativa economicamente viável para escoar sua produção e ganhar os mercados internacionais com precificação melhor a partir de uma logística de transporte mais barato. Toda a capacidade de transporte e escoamento de cargas do Centro-Sul está estrangulada, atrasando a entrega de produtos e encarecendo os preços dos produtos brasileiros no exterior.
O Carajás – Então, o sr. acredita que o Projeto Alpa/Aline será mesmo instalado em Marabá? Ítalo – Acredito que, diante das garantias dadas pelos empreendedores principais responsáveis pelos dois investimentos, não há dúvida que esses projetos serão implantados. Agora, isso não quer dizer que podemos ficar de braços cruzados. Existem desafios que precisam ser superados, como em qualquer outro negócio, e para isso precisamos nos manter alertas e mobilizados. Precisamos fazer o nosso dever de casa e pressionar os governos para que cumpram os compromissos assumidos e permitam viabilizar este eixo estruturante para o desenvolvimento nacional que é a hidrovia. A ACIM não descansa nessa luta. Dentro de alguns dias vamos realizar um grande seminário em Marabá reunindo os empreendedores interessados em investir no Polo Metal-Mecânico em Marabá. Será a oportunidade para atrair novas empresas e reafirmar os compromissos com os empreendedores que garantiram participação neste empreendimento que significará a criação de um verdadeiro Parque Industrial em Marabá, com impactos positivos para toda a região do Estado do Carajás e do Novo Pará. Com isso, deixaremos de exportar matéria-prima e passaremos a ter aqui toda a cadeia produtiva do minério, internalizando recursos e gerando emprego e renda para nossos jovens. É isso que temos que fazer ou então continuar vendo nossas riquezas serem levadas deixando um enorme passivo social e ambiental para nós e nossos filhos.

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