3 de dezembro de 2014

D.Ruth e a gravata de Renan

Na tarde desta terça-feira (2), o Congresso Nacional viveu um de seus piores momentos. A desastrosa condução do presidente da Casa, senador Renan Calheiros (envergando seu terno bem talhado e gravata bordeaux) e a ânsia que parece compartilhar com a base aliada em entregar o que prometeram à Dilma - licença plena para desconhecer a Lei de Responsabilidade Fiscal no que diz respeito ao cumprimento das metas fiscais graças ao PLN 36 - foram capazes de produzir cenas como a que ilustra este post. Ruth Gomes, 76 anos de idade, aparece recebendo uma "gravata" aplicada por um integrante da Polícia do Senado, destacada para evacuar a galeria da Câmara Federal por ordem do presidente do Congresso.
A pendenga em torno da aprovação quase certa do PLN 36 arrasta-se por mais de quinze dias. A única arma da oposição, a chamada obstrução, não parece ter qualquer chance contra a blitz que Renan e os partidos aliados ao Governo decidiram colocar em curso. A recompensa - mais ministérios no novo mandato de Dilma e um acréscimo de R$ 444 milhões em emendas aos parlamentares - são razões suficientes para justificar a utilização de todos os meios para dar indulgência plena ao Governo que não foi capaz de cumprir as metas que ele mesmo havia fixado.
Para completar, um decreto estabelece que os tais R$ 444 milhões extras somente serão liberados depois da aprovação da PLN 36.
Através do Twitter, o senador Cristovam Buarque, no mérito, diz que "o PLN 36 visa legalizar a irresponsabilidade fiscal. É forma de acobertar erros do passado e provocar descontrole financeiro no futuro".
O senador Magno Malta afirmou que a ideia de "flexibilizar" a Lei em favor do governo equivale a "enfiar uma mão de pilão na garganta de um pinto. Não cabe."
Alguém duvida que são interpretações razoáveis do pedido do Governo?
Na tensa sessão iniciada por volta das 18 horas de ontem, foram distribuídas senhas de acesso aos partidos de forma proporcional à representatividade de cada um. Os partidos aliados decidiram não distribuir as suas. A oposição levou sua claque. Barulhenta, é verdade, mas nada além daquilo que o Congresso já presenciou em seus muitos anos como alvo de protestos.
Com lugares vazios, a oposição pediu a liberação das galerias. Renan negou. Tornaram a pedir e mais uma vez foi negado. Ao todo foram 14 parlamentares a argumentar contra a decisão da presidência. Renan foi intransigente.
Lá pelas tantas, alegando que a senadora Vanessa Grazziotin teria sido chamada de "vagabunda", a deputada do PCdoB Jandira Feghali pediu a evacuação das galerias. Renan atendeu de forma imediata. Adianta argumentar que não foi esse o grito da arquibancada? Adianta lembrar que poderia ter advertido a assistência? Claro que não! Renan precisava da desculpa para livrar-se da plateia. Qualquer uma serviria.
O que se viu a seguir foram socos, pontapés, uso de armas de choque e "gravatas" em velhinhas.
Sessão suspensa, por óbvio.
Congresso menor, por óbvio.
Logo mais, 10 da manhã, a sessão será retomada. Estão mantidos o quorum e a pauta da sessão de ontem. Tudo correndo de acordo, a proposição será aprovada. O PMDB e os demais partidos entregarão, enfim, o que prometeram. Deixarão pelo caminho também um pouco mais de sua dignidade.
Enfim, da tarde-noite desta terça-feira, ninguém vai se lembrar do belo terno usado pelo sempre bem arrumado Renan Calheiros, mas a gravata que ele mandou aplicar em d.Ruth já correu mundo.

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