Não é sempre, mas algumas vezes nos deparamos com textos para os quais, depois de lê-los duas ou três vezes, diz-se: "Este eu assinaria com prazer".
Pois o texto cujo link segue abaixo é daqueles que eu assinaria mil vezes se pudesse.
Da lavra rica de Eliane Brum, jornalista e documentarista da revista Época, "A Amazônia, segundo um morto e um fugitivo" narra uma daquelas histórias dignas de ganhar o mundo através das telas de cinema, com direito a enredo recheado de ação e aventura, uma causa nobre a defender, vilões e heróis na eterna luta do bem contra o mal e nos leva do "Riozinho do Anfrísio", que os leitores do blog conheceram aqui, até o Ipê Golf Club, da rica Ribeirão Preto e às festas de boa vibe em São Paulo, onde gente fina e bonita diverte-se usando o dinheiro auferido da atividade criminosa. Tivesse um final feliz, seria perfeito. Mas, aí seria filme e estamos aqui a falar da realidade dura e cruel na qual vivem os moradores da região de Carajás e Tapajós, abandonados pelo Estado (em todas as formas e definições), espremidos entre invasores de terra de todos os matizes e tendo que fazer a escolha entre calar e viver ou denunciar e correr para não morrer.
A reportagem conta a história de João Chupel Primo, o morto e Júnior José Guerra, o fugitivo, trabalhadores rurais que tiveram a ousadia de denunciar o uso e abuso de terras públicas por grileiros em Itaituba. A criação de gado e a extração de madeira nestas terras fazem a riqueza dos frequentadores das festas society e dos campos de golf paulistas, enquanto matam com desenvoltura nas regiões de Carajás e Tapajós. Sem a presença do Estado, são regiões dominadas pela força das armas.
Vejam bem.
Em dezembro, por ocasião do Plebiscito, tivemos a oportunidade de ao dividir o Estado do Pará em três novos estados, e começar a trazer o aparato estatal para perto dos miseráveis que morrem de acordo com tabelas atualizadas periodicamente pela pistolagem. Infelizmente, graças à intervenção destrambelhada e pseudo emocional de Jatene e sua corriola (formada por políticos e grandes grupos econômicos da capital do Pará, além de uma parcela da esquerda tola), Belém, a metrópole que nos domina sem governar, disse não para Carajás e Tapajós. Por decorrência, acabou dizendo sim à barbárie continuada.
No Pará ingovernável e sem recursos, o copo de cólera continua a encher. De um lado, fazendeiros reclamam, com razão, da leniência e quase preguiça do Governo do Estado em combater invasões de terras e cumprir mandados de reintegração de posse. De outro lado, são os movimentos sociais que demonstram o recorde paraense em mortes no campo, retrato do abandono e do descaso.
Peço a vocês que leiam com atenção a fantástica história verídica contada por Eliane Brum. Adianto apenas que não esperem o final feliz. Aqui na Amazônia o bem não vence o Mal. Aqui a "cavalaria" não chega no último segundo para salvar o combatente solitário. Não esperem aquela última tomada idílica do herói passeando de mãos dadas com esposa e filhos por uma campina verdejante, enquanto uma música melosa embala os créditos da fita. Isso aqui é Carajás e Tapajós, partes destroçadas de um estado sem lei. Aqui o denunciante registra BO na "especializada" e é mandado de volta para junto de seu algoz. Aqui o denunciante foge constantemente porque sabe que se parar, morre. E o Estado (em todas as suas formas), o que faz? Como sempre, nada!
Aqui o link da matéria de Época.
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