30 de janeiro de 2012

Nas páginas de Época, Graça Foster vê publicado mais um capítulo de "Esta é sua Vida"

Tenho como grande amigo Ademir Paulo Dan, o "Juca", político da melhor qualidade e um daqueles casos raros de lideranças que passam invictas pela vida pública. Quatro mandatos de vereador nas costas o fizeram um sábio nos lidares da política, principalmente nas disputas mais encardidas, aquelas travadas pelos vereadores e candidatos ao cargo. Nessas refregas, o contato direto com o eleitor não permite muita margem de manobra. Uma palavra errada ou um aperto de mão um pouco mais frouxo, e não há media training que recupere o voto perdido. Uma dureza!
Pois bem, Juca contou-me certa vez a história de um rapaz esforçado que, tendo perdido o pai tragicamente, cresceu em lar adotivo sem conhecer a mãe ou irmãos, conseguiu formar-se em direito e passou a exercer a profissão de advogado sempre focado em ajudar os pobres e desvalidos. Tantas boas ações fez que acabou candidato à vereador. Duas semanas de campanha foram suficientes para que tivesse notícias da família inteira. Descobriu-se que o pai foi notório ladrão e morreu assassinado pelos comparsas; a mãe exercia a profissão mais antiga do mundo em uma cidade vizinha e era extremamente famosa entre os frequentadores do mafuá no qual fazia ponto; a irmã (sim, ele tinha uma irmã), seguia os passos da mãe com igual ou maior desenvoltura; e para completar, soube-se que o diploma do rapaz era fruto de fraude, uma vez que o pai adotivo havia-lhe comprado a vaga na universidade. Não precisa dizer que campanha e carreira foram pelo ralo e do rapaz não se ouviu falar mais.
Conto a historinha apenas para referir os atuais atropelos por que passa a carreira de Maria das Graças Foster, que em fevereiro deverá assumir a presidência da Petrobras. Depois do anúncio de sua indicação noticiada aqui, Foster vem alcançando uma grande notoriedade. Pena que nem sempre do ponto de vista favorável. A empresa do marido de Foster firmou mais de 40 contratos com a Petrobras, algo que, ainda que seja legal, não parece muito legítimo.
Agora é a revista Época que mostra um fato curioso. Segundo a reportagem da revista, quando Dilma, em janeiro de 2003, foi nomeada ministra de Minas e Energia no primeiro governo Lula, a atual presidente chamou Maria das Graças Foster para ocupar o cargo de secretária de Petróleo e Gás do ministério, onde ficou por mais de dois anos. Esse período guarda, no entanto, um episódio suspeito. Em 2004, de acordo com documentos oficiais da Petrobras obtidos com exclusividade por ÉPOCA, Maria das Graças ganhou uma nomeação retroativa na empresa. Um memorando datado de 11 de março de 2004 promove a química de petróleo sênior Maria das Graças Pena Silva (nome de solteira da futura presidente da Petrobras), que exercia na empresa o posto de gerente de tecnologia, ao cargo de confiança de gerente da unidade de Gás Natural da CEG Rio. Trata-se da companhia de distribuição de gás do Rio de Janeiro, empresa na qual a Petrobras detém participação via Gaspetro. O que há de mais estranho é que a data da nomeação é anterior à do memorando: 29 de janeiro de 2003. Maria das Graças ocuparia o cargo de outra funcionária, Lecy Pires Colnaghi.
Segundo juristas, esse ato de nomeação retroativa constitui, por si só, uma ilegalidade. “Não existe nomeação retroativa. A única hipótese seria por decisão judicial porque a pessoa tinha direito a um cargo, não tomou posse e teve o direito reconhecido, o que obriga o pagamento retroativo. Do contrário, é um ato ilegal”, diz o procurador da República no Tribunal de Contas da União (TCU) Julio Marcelo de Oliveira. Quem executou a operação foi Djalma Rodrigues de Souza, então gerente executivo de Gás Natural da Petrobras – personagem que mais tarde ficaria conhecido por ser afilhado de Severino Cavalcanti, o folclórico ex-presidente da Câmara dos Deputados que renunciou ao cargo em meio a denúncias de recebimento de propina. Foi para Djalma que Severino reivindicou um cargo de diretor da Petrobras, com a frase que ficou célebre: “Não quero uma diretoria qualquer, e sim uma diretoria que fura poço”.
Por outro lado, uma parte da biografia da futura presidente da Petrobras parece um tanto obscura. Ela diz ter sido "catadora de latas e garrafas". Isso parece não ser bem verdade. Esta parte foi, digamos assim, introduzida na história para dar-lhe um certo ar triunfalista (como se não fosse suficiente a trajetória de executiva de sucesso que Foster ostenta).
A nomeação de Foster atende certos interesses. Não é de hoje que sabe-se da existência da queda de braço entre Dilma e Zé Dirceu, que mesmo nas sombras, consegue manter-se influente no governo federal. Sérgio Gabrielli, atual presidente da Petrobras e de quem Dilma quer ver-se livre, era do time de Dirceu. Foster na Petrobras deverá mudar grande parte da diretoria da estatal e nomear José Eduardo Dutra, coordenador da campanha de Dilma, para uma dessas cobiçadas vagas. Dirceu, claro, não anda feliz com isso e não será de espantar que, até fevereiro chegar, novas e nada alvissareiras notícias tenhamos sobre Graça Foster.
Ela que fique esperta ou o cargo e a carreira podem ter o mesmo destino da campanha do desafortunado candidato da história contada por Juca.

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