15 de janeiro de 2015

Enquanto isso, na "Pátria Educadora", cortes de investimentos na Educação, Enem atrapalhado e notas que despencam.

A educação vive sua crise. Isso não é novidade. As notas da redação dos alunos que prestaram o Enem pioraram em quase 10% e houve quase 530 mil "zeros" no teste. Um pequeno exército de analfabetos funcionais, portanto, concluiu o ensino médio. Bastaria esse número para despertar um debate intenso entre governo e sociedade sobre os rumos da educação no País.
Mas...
Isso é Brasil, certo? País onde a educação é um "faz-de-conta".
Aqui, o Governo finge que tem a educação como prioridade - Dilma afirmou na posse que o lema deste seu re-governo seria "Brasil, Pátria Educadora" e dois dias depois cortou mais de R$ 7 bilhões de investimento na...educação!
Por outro lado, pais e alunos fingem que consideram a educação algo importante. Mas, só fingem. A maioria pretende apenas a conclusão do ensino médio e, no máximo, arriscar a sorte em um curso qualquer, de preferência financiado pelo Governo em alguma "faculdade de fim-de-semana". No Brasil, vale o "título", não a formação.
Seguimos assim bovinamente acomodados, enquanto países como a Coreia e a China fazem altos investimentos em seus alunos. Aos poucos, ficamos cada vez mais atrasados em relação até mesmo a países da América Latina. Chile e Argentina há tempos oferecem educação de melhor qualidade.
Recentemente, o professor e senador pelo DF, Cristovam Buarque, em um belo relatório enumerou 15 fontes de financiamento da educação por acreditar, como acredito também, que não há mágica neste assunto. Mais dinheiro, melhores resultados. Simples assim.
Mas...isso é Brasil, não é?
Chances deste debate ter alguma consequência? zero ou algo muito próximo a zero.
Não bastasse este cenário sombrio, a cada edição do Enem aparecem denúncias que colocam em dúvida a correção do certame.
Vejam lá.

N'O Globo de hoje (15), temos a história de Francinaldo Guedes Pereira. Ele completou 16 anos no dia 9 de novembro de 2014 e resolveu comemorar fazendo uma "homenagem" a ele próprio na redação do Enem. Segundo foto da folha de rascunho postada pelo candidato numa rede social, ele inseriu o trecho "porque hoje é meu niver" na última frase do terceiro parágrafo do texto. Francinaldo também printou a tela com suas notas no exame, em que teria tirado 600 em redação, ficando acima da média nacional de 470,8.
Se for confirmada a inserção do trecho no espelho da redação, que será divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) até o fim de março, seu texto deveria ser anulado de acordo com o edital do Enem 2014. O item 14.9.5 diz que será atribuída nota 0 (zero) à redação "que apresente parte do texto deliberadamente desconectada com o tema proposto, que será considerada 'Anulada'".
Em entrevista ao GLOBO, Francinaldo confirmou que escreveu a brincadeira para testar a banca de correção.
- Vi que um aluno colocou a receita de miojo (na redação do Enem 2012), e aí queria testar como era. Era dia do meu aniversário e eu estava fazendo (a prova) só por experiência. Fiquei surpreso com a minha nota, porque muita gente fez com o tema certo, tudo direitinho, e tirou nota menor. Esperava tirar 0 - diz Francinaldo, que passou para o 3º ano de uma escola pública do município de Aguiar. - Este ano vou fazer sério, pois quero passar para a faculdade de Design.

Segundo o MEC, um complexo sistema de avaliação foi estabelecido para definir as notas das redações. Vejam como é:
A nota de redação vai de 0 a 1.000 pontos. Um bom texto para ganhar nota 1.000 deve cumprir bem cinco competências exigidas pela redação do Enem. Cada competência tem cinco faixas que vão de 0 a 200 pontos.
Competência 1: Demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita.
Competência 2: Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo.
Competência 3: Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.
Competência 4: Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários à construção da argumentação.
Competência 5: Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.
Cada redação do Enem foi corrigida por dois corretores de forma independente. A nota total de cada corretor corresponde à soma das notas atribuídas a cada uma das cinco competências.
Se houvesse discrepância entre as notas dos dois corretores por mais de 100 pontos, ou se a diferença de suas notas em qualquer uma das competências fosse superior a 80 pontos, a redação iria para um terceiro corretor.
Caso houvesse discrepância entre o terceiro corretor e os outros dois corretores, ou caso houvesse discrepância entre o terceiro corretor e apenas um dos corretores, a nota final seria a média aritmética entre as duas notas totais que mais se aproximaram.
Se a nota do terceiro corretor tivesse diferença equidistante das notas dos outros dois corretores, ou se fosse completamente diferente, a redação seria avaliada por uma banca de três avaliadores para escolha da nota definitiva.
Pois bem.
Percorrida toda essa via crucis, ainda é verificado se as ideias defendidas na redação "ferem" os direitos humanos (de acordo com quais critérios não se sabe). Mesmo assim, passou pelo crivo dos avaliadores uma clara infração às regras estabelecidas. E como "porteira por onde passa um boi, passa uma boiada", é de se perguntar quantas outras infrações terão sido ignoradas neste edição do Enem.
A verdade é que, desde 2009, não passa uma edição deste exame sem que o MEC tenha que explicar-se por conta de suas trapalhadas.
Fica parecendo que o Enem, como legítimo integrante do processo educacional brasileiro, também é um exame de "faz-de-conta", um embuste.
Enquanto isso, é preciso ouvir o ministro da Educação a dizer que esse negócio de salário alto para professor é tolice. Para ele, o magistério é "um sacerdócio, um ato de amor"!
Enquanto isso, as prefeituras em todo o País correm o risco de quebrar para pagar o piso salarial dos professores, sem que o Governo Federal aceite dividir de forma mais equânime os recursos destinados ao custeio da Educação.
Enquanto isso, vemos um contingente imenso de ótimos profissionais do magistério serem alcançados pela depressão e pelo desânimo, diante da falta de reconhecimento de seus esforços pelo Estado e Sociedade.
Enquanto isso, formamos um exército de analfabetos funcionais, todos devidamente armados com seus diplomas de ensino médio e incapazes de ler ou escrever um mero anúncio de emprego.
Definitivamente, falta muito para sermos "Pátria" e mais ainda para que esta seja "Educadora".

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