31 de janeiro de 2015

"Civilização do lápis" - um texto primoroso e essencial de Cristovan Buarque. Leiam.

O texto a seguir, vindo da pena afiada do professor e senador do PDT por Brasília, Cristovan Buarque (na foto acima), é daqueles que deveriam se tornar norteadores das discussões - acadêmicas ou não - e causar efeitos imediatos entre os formadores de opinião. Digo deveriam, porque no Brasil, estamos ocupados demais com temas mais relevantes, entre eles a última música de duplo sentido a emplacar nas paradas de sucesso, quantos beijos gay são necessários para se fazer uma novela ou o quanto é possível se ver de sexo feito sob cobertas e edredons por outras pessoas. Diante de tantos e tão importantes temas, que importância teriam mesmo assuntos como tolerância, civilização, democracia e exercício da cidadania, não é?
Mesmo assim, sabendo que poucos lerão, reproduzo essa peça de Cristovan, originalmente publicada no Blog do Chiquinho Dornas. Leiam com a atenção que merece. É primorosa, esclarecedora e provocativa. Ainda bem que, apesar dos pesares, ainda temos figuras como Cristovan, a servir como referência.
Boa leitura. 
Cristovam Buarque: Civilização do lápis

Não foi por acaso que o lápis se transformou em símbolo da luta contra o terrorismo e a civilização do medo.
Muitos de nós não compraríamos um exemplar do Charlie Hebdo com suas blasfêmias de mau gosto, mas estamos indignados com o ato bárbaro de fanáticos que assassinaram seus profissionais. A liberdade religiosa deve criar respeito a todos os credos e seus símbolos e a liberdade de expressão deve assegurar o direito a quem deseja blasfemar contra eles. Estamos indignados porque o mundo contemporâneo não foi capaz de avançar no exercício pleno da tolerância, com humor sem blasfêmias e sem violência contra quem blasfema.
Estamos indignados também contra aqueles que usam a barbaridade de alguns fanáticos para criar preconceitos contra 1,6 bilhão de pessoas que praticam o Islã, uma religião com 15 séculos de história.
Estamos indignados porque a indignação contra os atos terroristas em Paris, não se manifesta com a mesma força contra outros bárbaros atos terroristas como, por exemplo, meninas sequestradas na Nigéria, o uso de criança suicida como portadora de bomba e os bombardeios aéreos contra civis no Iraque e na Palestina.

Indignados porque nossa civilização ocidental ocupa o planeta sem respeitar outras culturas da humanidade: rouba terra, destrói florestas, anula valores e culturas, impõe modo de vida, ridiculariza o que não lhe é similar, e fabrica terrorismo, resultado da humilhação e do desespero. Estamos indignados com a maldade do terrorismo e com a insanidade da fábrica de terrorismo.
Estamos indignados e envergonhados porque vencemos as doenças, entendemos o funcionamento do universo e dominamos a natureza para viver confortavelmente, mas não conseguimos controlar nossa voracidade pelo consumo, nossa ganância pelo lucro, nossos fanatismos.
Em consequência, estamos deixando uma civilização do medo para nossos jovens e às futuras gerações: medo do aquecimento global, do desemprego, da droga e da desigualdade crescente. Medo, sobretudo, da violência atual do terrorismo provocado pelo fanatismo religioso e, em breve, pelo desespero da exclusão social ou pelo inconformismo com a destruição do meio ambiente. A fábrica da violência está na economia que destrói a natureza para que 1% da população tenha riqueza maior do que os outros 99%.
Mas temos esperança de que a humanidade possa reorientar nosso destino para um modelo de civilização harmônico com a natureza, entre os seres humanos, suas culturas e religiões, em busca da felicidade com plena liberdade, inclusive de expressão.
Acreditamos que, além das medidas policiais imediatas, a vitória sobre o terrorismo só virá por meio de um imenso programa mundial de investimento em educação das crianças do mundo, ao longo de décadas. Até porque de nada adianta falar em pena de morte para quem deseja ser mártir, de nada adianta defender a liberdade de expressão para os 800 milhões de adultos que não sabem ler as ideias escritas nos jornais.
Não foi por acaso que o lápis se transformou em símbolo da luta contra o terrorismo e a civilização do medo.

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