6 de janeiro de 2015

Ao assumir Agricultura sob fogo intenso Kátia Abreu diz que "não há latifúndio no Brasil". Ministra "joga pedra na lua", diz CPT



Começou sob fogo intenso a gestão da pecuarista e senadora pelo Tocantins, Kátia Abreu à frente do Ministério da Agricultura. Em uma desastrada entrevista ao jornal Folha de São Paulo e publicada ontem (5), Kátia afirmou que "não existe latifúndio no Brasil" e que a "Reforma agrária não pode ser feita em massa". Isso acabou por despertar o furor de setores que jamais aceitaram a presença da ruralista no governo do PT. Edmundo Rodrigues, da coordenação nacional da CPT (Comissão Pastoral da Terra), disse ao portal UOL que as declarações de Kátia são "uma asneira total" e que manifestações como a da ministra "acirram ainda mais a violência no campo".
"É uma asneira total. Parece que a ministra está jogando pedra na Lua. Dizer que não há latifúndio no Brasil é uma inverdade e a gente precisa desmentir porque senão as pessoas começam a achar que o que ela está falando tem base na realidade, e não tem", afirmou.
Para Alexandre Conceição, da coordenação nacional do MST, as declarações da ministra negam sua própria existência. "Ela está negando sua própria existência porque ela é uma latifundiária clássica", afirmou.
Alexandre Conceição diz que a declaração de Kátia mostra desconhecimento da ministra em relação à realidade do setor e que sua presença no ministério é perigosa para a administração petista. "Uma ministra que veio cuidar da agricultura com um pensamento atrasado e não reconhecendo a realidade agrária é um perigo para o governo Dilma. Ela (Kátia Abreu) é, sim, latifundiária", disse Conceição.
Ao assumir ontem (5) o cargo de ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu evitou tratar das polêmicas envolvendo declarações recentes de que não haveria mais latifúndio no Brasil e disse que recebeu da presidenta Dilma Rousseff a incumbência de dobrar o número de pessoas na classe média rural, nos próximos quatro anos.
“Ela [Dilma] me pediu obstinação nessa tarefa. Vamos estabelecer como meta dobrar a classe média rural nos próximos quatro anos. Tem mais de 5 milhões de produtores rurais, sendo que 70% deles estão na classe D e E, 6% na classe A e B e apenas 15% na classe C”, disse a ministra que prometeu levar pelo menos 800 mil produtores para a classe C.
Segundo ela, será feito um esforço para dotar esses produtores de capacitação técnica. Para isso, a nova ministra pretende envolver órgãos federais como a Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), o Sistema S e as universidades. “Vamos de porteira em porteira atrás dessas pessoas buscando e levando uma revolução em tecnologia para que eles possam ascender socialmente e ter uma renda mais elevada”, disse.
Kátia Abreu também falou em diálogo com os movimentos sociais e ao ser perguntada sobre a declaração de que não haveria mais necessidade de uma reforma agrária ampla no Brasil, respondeu que o assunto é da competência de outro ministério. “O meu ministério não é responsável pela reforma agrária, essa competência é do MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrário], e eu pretendo respeitar essa competência.”
A declaração de Kátia Abreu sobre latifúndio recebeu crítica do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) que, em nota, considerou a fala “descabida e desconectada da realidade do nosso país”. “Quem realmente conhece a história de nosso país sabe que não são os povos indígenas que saíram ou saem das florestas. São os agentes do latifúndio, do ruralismo, do agronegócio que invadem e derrubam as florestas, expulsam e assassinam as populações que nela vivem”, diz a nota.
A nova ministra, no seu discurso, também defendeu a ampliação da infraestrutura logística com a construção de ferrovias e hidrovias. Segundo Kátia, um dos desafios do ministério será desbravar a fronteira agrícola dos estados do Norte e Nordeste, em especial o Tocantins, Maranhão, Piauí e a Bahia. “É uma região muito especial onde não ocorrerá desmatamento, pelo contrário, são áreas de pecuária que estão sendo transformadas em agricultura, e essa região precisará ter um crescimento sustentável do ponto de vista ambiental, da logística, da energia e da armazenagem”.
Ela disse ainda que vai trabalhar para aumentar as exportações do agronegócio. “Nós temos um imenso mercado no exterior, e as nossas empresas, as nossas agroindústrias precisam estar preparadas para exportar para esse grande mercado consumidor, quer seja de carne em geral, quer sejam de outros produtos. A nossa obrigação como ministério é abrir as portas para que todas as empresas possam exportar.”
A nova ministra também prometeu tratar da crise do setor sucroalcooleiro, decorrente do baixo preço do petróleo e de questões climáticas. “O setor sucroalcooleiro não tem uma receita única, teremos que ter uma receita com vários conceitos, com variadas prioridades e soluções para que este assunto se resolva”, disse Katia Abreu que prometeu buscar uma solução para crise em reuniões com os ministérios da Fazenda, do Planejamento e com o Tesouro Nacional.
O Pará pode esperar muito pouco da gestão de Kátia Abreu se levar em consideração a filiação partidária ou a articulação com os produtores rurais paraenses.
No âmbito partidário, o PMDB, partido de Kátia, não a reconhece como de sua "cota" no Governo Dilma. A cúpula entende que a senadora ruralista é da "cota pessoal" da presidenta e não deve se movimentar muito para defendê-la; de outro lado, Kátia não deverá atender com muito entusiasmo pedidos que tragam a assinatura dos caciques da legenda.
No que diz respeito ao relacionamento com as lideranças dos produtores rurais, aí é que a "porca retorce ainda mais o rabo". Carlos Xavier, eterno presidente da influente Federação da Agricultura do Estado do Pará (Faepa), foi um dos mais ferrenhos opositores da recondução de Kátia à presidência da CNA. A pecuarista tocantinense foi acusada de forçar a aprovação de forma irregular suas contas e ter gasto apenas com publicidade mais R$ 9 milhões sem comprovação. Ao todo, seriam mais de R$ 31 milhões gastos sem os devidos documentos contábeis.
Assim, enrolada na CNA, um tanto escanteada por seu partido e com a língua destrambelhada, tudo indica que a gestão de Kátia Abreu padecerá de muitos males, menos da monotonia.

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