Bem, queridos, confesso que às vezes gostaria de errar feio nas avaliações que faço aqui. Infelizmente, não será desta vez que ficarei feliz por ter errado.
Falo isso a respeito da reunião entre a bancada paraense e a ministra Miriam Belchior para discutir a reinclusão das obras da hidrovia Araguaia-Tocantins, marcada para ontem (15) que decorreu como o previsto. Ou seja, todos tiveram o prazer de externar suas mais profundas e sinceras convicções sobre a necessidade do empreendimento e de sua condição estratégica para o desenvolvimento de Carajás e, sem exagero, do País.
Mas, ao fim e ao cabo, nada, rigorosamente nada de novo e concreto foi aventado. Lembrou certa dança muito popular na França do século XVIII, como se vê adiante.
A dança em questão é o "minueto", que esteve em voga na corte de Luis XIV e baseava-se em movimentos de distanciamento e aproximação embalados por suítes e sinfonias. Ora vejam se a história da Hidrovia não se assemelha a esta dança!
É de pasmar, mas as mesmíssimas informações fornecidas pelo ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, sessenta dias atrás formaram, hoje, o discurso de Miriam Belchior.
No dia 9 deste mês no texto "Na quarta (14), Governo Federal recebe bancada paraense no Congresso para discutir hidrovia. Segue o jogo de cena!" afirmei que "como se vê, não depende de Jatene "mobilizar" a bancada do Pará "em defesa da hidrovia" para "conscientizar a presidente Dilma" da importância deste investimento (nesta reunião, por exemplo, ele é que foi "mobilizado"!). Trata-se de uma decisão política mais complexa e para influenciá-la depende de algo mais que "pressão" política. É preciso ter recursos para bancar ao menos parte desta obra. E o Parazão, grandão, ricão e "pujante" não tem nem o do cafezinho!"
Disse mais: "Ao final da reunião da próxima quarta, Miriam Belchior dirá ter absoluta consciência da importância da obra e que o Governo estuda como viabilizá-la; Jatene dirá que fez "de tudo" para "conscientizar" a ministra e que devemos todos "nos unir" para "pressionar" o Governo Federal; os parlamentares dirão que cumpriram o papel de reivindicadores e que agora o busílis está nas mãos do Governo Federal; este por fim passará a responsabilidade para a Vale que, como tem a Estrada de Ferro Carajás já em ampliação, não tem com o que se preocupar! Resumindo a ópera: Hidrovia hoje, só amanhã!"
A ministra, apesar do louvável esforço de lideranças como Flexa Ribeiro, Ana Júlia Carepa e Ítalo Ipojucan, mantém a posição de "reavaliar" os custos da obra e de "dividir" com as empresas interessadas a execução do empreendimento. Essa era e continua sendo a posição oficial do Governo Federal e não será a "união" de mãos, corações ou outros órgãos da anatomia humana ou política que mudarão este fato.
Já disse que o Governo Federal espera da Vale um envolvimento nas políticas desenvolvimentistas estatais que uma empresa privada de capital aberto dificilmente se disporia a demonstrar.
Quanto a esta reavaliação, dificilmente a teremos antes de fevereiro e, a partir daí, começará a queda de braço com a Vale.
Afirmei aqui que em 2012 haverá a oportunidade de, através da compra de parte do capital votante da Vale, os fundos de pensão passarem a controlar a mineradora. Isso na prática a tornaria uma "estatal" de novo. Neste caso, Dilma poderia impor que a Vale assuma parte da conta. Acreditem: Esta é uma das apostas do Planalto.
Miriam Belchior disse que "não acredita" que a Vale se negue a arcar com os custos da hidrovia. Que ninguém tome esta afirmação pelo seu valor de face. Esperavam o quê? Que a ministra deitasse falação contra a "intransigência" da Vale? Trata-se de uma forma polida de expressar esperança, mas está longe de ser uma garantia definitiva.
A melhor alternativa seria o Governo do Pará mostrar que tem interesse real e recursos não menos reais para bancar parte da obra. Colocando dinheiro sobre a mesa, o Pará poderia exigir que os demais envolvidos fizessem o mesmo.
Esta seria a alternativa mais rápida e viável para concretizar a hidrovia.
Ocorre que, como se lê acima, o Parazão velho de guerra, "unido"e grandão, não tem (e não busca alternativas verdadeiras para ter) recursos para arcar com, digamos 25% deste empreendimento.
Assim, ficamos nós em compasso de espera, cheios de boas perspectivas e limitados por este estranho minueto que dançam a Vale e os governos estadual e federal.
Uma nota curiosa para encerrar: Repercute a ausência da Prefeitura de Marabá nesta audiência. Entendo que antes de vermos o início das obras da hidrovia, muitas outras ocorrerão, assim, espero sinceramente que a "limada" que levou Maurino Magalhães na reunião de hoje não seja sintoma daquelas "chagas" e "feridas" que Jatene falava em sua "carta" tristemente famosa. Seria terrível admitir que, por conta do plebiscito e de outras coisinhas mais, mesmo a relação institucional entre Marabá e o Pará de Jatene tenha sido interrompida.
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