25 de novembro de 2011

De números, política e oportunidades perdidas

Bem, queridos, como se viu nesta segunda rodada de pesquisa sobre a intenção de voto do eleitorado paraense para o plebiscito de 11 de dezembro divulgada hoje, pouca coisa mudou desde a primeira rodada divulgada no dia 11 de novembro.
Quinze dias depois estamos exatamente no mesmo lugar. As oscilações ocorreram dentro da margem de erro da pesquisa.
Isso, por si só, já seria péssimo para as pretensões dos que defendem a criação dos novos estados de Carajás e Tapajós, mas como disse no texto anterior sobre o tema, acabou sendo a boa notícia do dia! Adiante explico as razões desta afirmação. Mas, permitam-me, antes, uma rápida digressão.
Até onde consigo ver, a política é a arte de criar oportunidades para alcançar o convencimento.
Todas as manobras e estratégias dos jogadores têm um escopo apenas: abrir brechas e lacunas nos argumentos dos adversários e, a partir daí, explorar as debilidades e contradições dos oponentes.
Quem joga este jogo sabe que é preciso "forçar o erro" do adversário e, uma vez que este caia na armadilha, é preciso ser rápido para tomar a iniciativa e passar a comandar as ações, forçando o adversário a ser "reativo".
Disse aqui, e repito agora, que a campanha do SIM fez a largada perfeita. Equilibrou com perfeição a demonstração das mazelas das regiões de Carajás e Tapajós com a proposta de uma solução para os problemas; sofrimento e esperança estiveram reunidos para formar uma proposta política viável e compreensível para o eleitorado belenense, seu principal alvo.
Tudo no lugar (imagens, textos, música), o SIM propôs um belo enigma à campanha negativa da oposição aos dois estados. Sem rumo, a campanha do "Não" era errática; ora piegas e melodramática, ora agressiva e mentirosa.
Por dez dias o que se viu foi o SIM propondo, denunciando, pedindo, enfim, comandando as ações na propaganda. Ao "Não" estava reservado o papel de ser reativo. Aferrados à estratégia de negar-se ao debate, os contrários à Carajás e Tapajós sofreram um duro golpe quando a campanha do Sim divulgou uma entrevista com o jornalista Paulo Henrique Amorim. Nacionalmente conhecido, com passagens pela Rede Globo e atualmente na Rede Record, Paulo Henrique emprestou credibilidade ao discurso sobre a viabilidade econômica dos dois estados e, principalmente, sobre os benefícios que a redivisão trará ao Novo Pará.
A campanha do "Não" acusou o golpe.
As aferições feitas pelas duas campanhas perceberam uma tendência de mudança no voto de Belém. As pesquisas qualitativas demonstraram que, quanto expostos à informação qualificada, o eleitor belenense não via problema em mudar o voto.
Isso assustou o comando da campanha do "Não" que decidiu usar o que chamei aqui no blog de "arma de destruição em massa". Trouxeram Jatene para campanha!
A presença de Jatene, posicionando-se de forma clara CONTRA CARAJÁS E TAPAJÓS atendeu a diversos objetivos.
O mais importante deles foi estabelecer a discórdia dentro das frentes a favor de Carajás e Tapajós. Ora, a manobra estava preparada com muita antecedência. A própria conformação suprapartidária das frentes favorece esse tipo de ação.
A reação da campanha do SIM ao maldito texto deveria ter sido imediata e contundente. Deveria ter denunciado o terrorismo perceptível nas entrelinhas da Carta de Jatene. Deveria ter demonstrado a falácia presente nos argumentos toscos de um cidadão, que pela posição que ocupa, tem a obrigação de saber que o caixa do governo do Pará pode até suportar a criação de mais duas ou três secretarias, mas é incapaz de prover direitos essenciais como saúde, educação e segurança aos milhões de carajaenses e tapajoaras.
Era a brecha pela qual a campanha do SIM havia batalhado por dez longos dias! O flanco dos adversários estava aberto.
Coisa mais fácil era denunciar a presença do marqueteiro do PSDB, do "menino de ouro" e candidato à prefeito de Belém pelo PSDB e, agora, do governador do PSDB, na campanha contra Carajás e Tapajós! Bastava rotular a campanha do "Não" como "coisa de tucano". Bastava exigir uma retratação imediata de Jatene.
Tenho certeza que Duda Mendonça esperava ansioso por esse erro estratégico da campanha do "Não". Ao deixar o pedestal de "governador de todos os paraenses", Jatene seria apenas mais um a duelar. Perderia o caráter de "pai de todos" que gosta de auto impingir-se. Com a arrogância peculiar, estaria à feição para ser  derrotado politicamente.
A própria pesquisa Datafolha demonstra que a rejeição a Jatene é enorme. Flagrado em óbvia posição anti-democrática, Jatene seria um alvo fácil!
Mas, a mera presença de tucanos nas frentes pró Tapajós e Carajás foi suficiente para impedir que o SIM aproveitasse a oportunidade.
Pior. Permite que os argumentos equivocados de Jatene ganhem ares de "irrespondíveis"!
Perdida a oportunidade de contra-ataque, a campanha do SIM passou a "requentar" programas e passa a ter uma única alternativa: retomar do ponto zero a discussão sobre os benefícios da redivisão para implorar o voto dos belenenses. Hoje começaram a ser veiculados depoimentos de moradores de Tapajós (presumo que farão o mesmo com Carajás). Veremos quais resultados poderão trazer.
Confesso que considero isso muito pouco para fazer o ponteiro mudar em tão pouco tempo.
Cabe à campanha do SIM criar um novo fato político nestes próximos oito dias. Remar tudo de novo. Caso cheguemos na última semana sem alterações significativas, a vitória do SIM será obra do imponderável (alguns chamam de Deus, outros de Sorte ou Fortuna), enfim, sairá do campo da ciência política e entrará no campo da metafísica.
Quando se trata de política eu não acredito em metafísica ou em sentimentos "imanentes". Em política cabe a cada lado criar as situações que levem a aflorar os "bons sentimentos". Acreditar que o voto será "dado" pelo eleitor sem que as armas da política seja usadas para construir os caminhos que levem o eleitor a "dar" este voto é de uma ingenuidade atroz.
Política é convencimento e, muitas vezes, perdida uma chance para convencer o eleitor - seja da firmeza de suas propostas ou das fraquezas das propostas dos adversários - outra não aparecerá.
A grande oportunidade foi perdida e o tempo escorre entre os dedos dos líderes do SIM. Que saibam o que fazer do pouco tempo que lhes resta é tudo o que podemos desejar.
Considerando isso tudo que vai acima e outro tanto que deixei de escrever por decoro, a pesquisa de hoje (25) pode ser considerada uma boa notícia para a campanha do SIM.
Tivesse Jatene a aprovação do governador de S.Paulo, Geraldo Alckimn (73%) ou do governador do Ceará, Cid Gomes (75%), o estrago teria sido infinitamente maior. Em tudo e por tudo, ficou barato para a campanha do SIM.
Mas é inegável que Jatene, o Califa de Belém, provou que pode gritar com todo mundo e ninguém gritar de volta (ops, "quase" ninguém, não é? Afinal, este bloguinho saliente fez a sua parte! E imagino que outros tenham feito também).

Um comentário:

  1. Wilson como seguidora fiel deste blog, faço minhas suas palavras.Se nos conhecessemos e tivessemos conversado saberia que penso exatamente como vc.
    O que alguns líderes" não estão levando em consideração é o peso que atitudes isoladas e individuais terão em seu futuro político.Engana-se quem acha que poderá voltar para os palanques destas regiões com conversa furada e um derrota amarga como se nada tivesse acontecido, da mesma forma que fortalecer seus partidos para que continuem na vida publica a custa de nosso sofrimento.
    é do nosso futuro que estao tratando e seria muita pretensão acharem que além de não termos saúde, educação, segurança pública, não temos também mémoria e dignidade.

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