13 de outubro de 2011
A marcha das vassouras com "V de Vingança"; ou Não basta "curtir", tem que participar
O TEXTO QUE VAI ABAIXO TALVEZ NÃO AGRADE AOS LEITORES MAIS JOVENS QUE COSTUMAM FREQUENTAR O BLOG. DE ANTEMÃO VÃO AS ESCUSAS DE PRAXE.
Hoje mais uma vez o mundo virtual encontrou-se com o mundo virtual e o resultado, para dizer o mínimo, foi pífio.
Articuladas pela web, alguns milhares de pessoas (principalmente, em Brasília), promoveram a "marcha contra a corrupção".
Venho acompanhando as notícias da tal "primavera árabe", as mobilizações no Chile, nos EUA e aqui no Brasil para tentar entendê-las.
Lá como cá, o traço de união é o uso da web como elemento de mobilização e articulação de movimentos reivindicatórios.
Criou-se o mito que as redes sociais da internet derrubam governos facinorosos ou elegem governos democráticos. Nada mais falso. A tal "primavera árabe" foi articulada e dirigida pela Irmandade Muçulmana, organização fundamentalista com quase cem anos de existência e com tão pouco apego à democracia quanto os tiranos que derrubou. A eleição de Obama vez por outra é apontada como resultado desse tipo de mobilização virtual. Também não é verdade. Obama já era influente antes mesmo de apelar às redes sociais. Tratava-se de um político veterano que, de forma astuta, usou as redes sociais para promover-se.
Quando comparadas com as manifestações brasileiras percebe-se que ainda é incipiente entre nós o poder das redes sociais. Para dar o devido desconto deixo de lado o efeito emulatório ("se deu certo lá, dará certo cá").
Digo isso apenas para constatar que existe um abismo enorme a separar o ato de "compartilhar" um "link" ou "confirmar" presença em um "evento" e efetivamente participar de uma mobilização política consequente.
A mobilização virtual ainda não alcançou relevância suficiente para pautar a agenda da política real.
Essas mobilizações, carregadas das melhores intenções, padecem de alguns males que costumam ser mortais. Não possuem uma pauta clara de reivindicações. Não estabelecem as conexões necessárias com outros movimentos sociais. Não têm articulação interna.
Ora, ser contra a corrupção é fácil. Qualquer corrupto contumaz, quando questionado, dirá ser contra a corrupção. Mas, quais medidas seriam adequadas para reduzir a níveis civilizados a corrupção no Brasil? Quem as poderá implementar? Com quais meios?
Com certeza, nenhum dos que marcharam hoje têm essas respostas.
Que os mais jovens saibam que já tivemos a experiência de movimentos populares no Brasil. Para ficar nos mais recentes, a luta pelas eleições diretas e a derrubada de Collor.
Mesmo sem internet ou redes sociais via web, o povo mobilizado foi às ruas. No caso das Diretas, como negar a importância do velho MDB de Ulysses? No caso de Collor, como esquecer a liderança do PT de Lula?
Em ambos os casos, contudo, o movimento ganhou as ruas a partir do momento que as condições políticas foram construídas pelos partidos e pelos políticos.
Por outro lado, percebo uma ânsia enorme em demonizar organizações, partidos e políticos. Lamento dizer, mas não será assim que iremos mudar este país.
Nada contra as marchas e manifestações. Mas, para que tenham consequência é preciso que, os que marcharam ontem, estejam hoje nos centros acadêmicos, sindicatos, associações de bairros e partidos políticos disputando politicamente, no mundo real, os espaços de poder em cada um desses organismos. Vi manifestantes reclamando da ausência da UNE e da CUT. Estão certos em reclamar. Mas, deveriam pensar em como participar dessas entidades para trazê-las de volta às ruas. Acusar o "peleguismo" nesses organismos é fácil. Difícil é dispender tempo, energia e raciocínio em favor de uma prática militante cotidiana no mundo real.
Ora, estamos todos cansados de corrupção, juros altos, desemprego e insegurança. Mas, para que essas mazelas sejam enfrentadas é necessário bem mais que plantar vassouras ou usar a máscara do "V de Vingança". No filme, o herói planeja explodir o Parlamento inglês como forma de "libertar o povo" da opressão de um governo corrupto e totalitário. Mas nós não precisamos "explodir o parlamento". Antes precisamos mudar sua composição e isso se faz através devido processo histórico, em um jogo de erros e acertos na hora de votar.
Tucanos e petistas formaram um verdadeiro exército de "dependentes estatais". Os programas sociais de ambos os partidos apresentam sempre a porta de entrada, jamais a de saída. Com isso, garantem um "patrimônio" formado pelos votos de 40 milhões de famílias cujos representantes não integram as redes sociais e não são por elas representados.
20 mil marcharam em Brasília; mas, apenas mil apareceram na Avenida Paulista em S.Paulo. É lícito perguntar porquê. Arrisco uma explicação prosaica. Não deve ser fácil para um brasiliense, principalmente sendo jovem e ativo nas redes sociais, ser "zoado" por morar na cidade mais identificada com a corrupção no País. Talvez esse apelo "bairrista" por assim dizer explique um número maior de participantes. Mesmo assim, mais de 50 mil confirmaram presença no evento e menos de 50% apareceram. Levando em consideração o milhão de habitantes de Brasília, o número de participantes fica ainda menor.
A receita para fazer crescer a onda de protestos não existe. Mas, algumas pistas estão à disposição de todos nós. E a primeira delas é a participação efetiva nas organizações existentes. Para mudar a política é preciso dela participar. E participação implica em construir um projeto baseado em um programa e interferir nas disputas eleitorais através de partidos políticos, sindicatos e associações.
Não será com mobilizações "apartidárias", que são na verdade "anti-partidárias", que os indignados mudarão o País.
Acredito que ainda vai chegar o tempo em que mobilizações virtuais mudarão o mundo real. Mas, por enquanto, essas erupções esporádicas servem apenas para produzir algumas imagens nos noticiários e para frustrar a maioria dos seus participantes.
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