Em audiência pública na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, o repórter da rede britânica BBC, Andrew Jennings, reafirmou nesta quarta (26) as suas acusações de que o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, e o ex-presidente da Fifa, João Havelange, receberam propinas para assinaturas de contrato da entidade máxima do futebol mundial com a ISL, uma das maiores agências de marketing esportivo do mundo.
De acordo com o relato do jornalista, Ricardo Teixeira teria recebido US$ 9,5 milhões em propinas por meio de uma empresa de fachada de Lichenstein, chamada Sanud. Jennings chegou ao valor por meio de um cruzamento de dados da CPI do Futebol de 2001 que teria mostrado o cartola recebendo dinheiro desta empresa e de uma lista atribuída à ISL, na qual haveria repasse de propina para a mesma Sanud. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR), que presidiu a investigação de 2001, afirmou que a suspeita é que a empresa Sanud pode ter sido usada para lavar dinheiro de Teixeira.
O repórter da BBC acusa também João Havelange. Segundo ele, um repasse de cerca de US$ 1 milhão de propina foi feito de forma errada pela ISL para a conta da Fifa e não do dirigente. O presidente da Fifa, Joseph Blatter, foi avisado e teria repassado o dinheiro a Havelange. Jennings especula que os repasses totais a Havelange podem ter chegado a US$ 50 milhões.
Jennings cobra da Fifa a divulgação do acordo fechado pelos dirigentes com a Justiça suíça, que está protegido sobre sigilo. Ele classificou como mentira a promessa do presidente da Fifa de que vai divulgar o documento a partir de dezembro. Para o jornalista, isso não ocorrerá porque Blatter admite no processo saber do pagamento de propina e isso inviabilizaria sua permanência no comando da entidade máxima do futebol. O jornalista afirma ainda que um depoimento de um diretor da ISL neste processo confessa o pagamento de US$ 100 milhões a dirigentes da Fifa.
Na audiência, disse estar à disposição da Polícia Federal, que realiza investigação contra o presidente da CBF.
Jennings também criticou as intervenções que a Fifa pretende fazer no Brasil por causa da Copa do Mundo de 2014. Ele lembrou que países europeus, como a Alemanha, em 2006, rejeitaram os tratados quando avaliaram que as condições feriam a soberania da nação.
De acordo com o jornalista, a Fifa “perdeu dinheiro” com o Mundial da África do Sul, no ano passado, e decidiu apertar as regras no Brasil para recuperar os recursos apostando no potencial turístico das cidades brasileiras. “Eles perderam muito dinheiro na África do Sul e querem recuperar no Brasil. Eles não podem tirar a Copa do Mundo daqui, e sabem disso”, afirmou, sugerindo que o país “diga não” a todos os pedidos da entidade.
Respondendo a questionamento do líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias (PR), Jennings relatou que problemas decorrentes de denúncias de corrupção entre cartolas regionais do futebol prejudicaram a imagem da África do Sul após a organização da Copa de 2010. Para ele, o Brasil corre o risco de também sair com a reputação chamuscada internacionalmente se a disputa de 2014 vier acompanhada de denúncias de desvios de recursos e tráfico de influência. “Eles (a Fifa) acham que é direito deles roubar o país. A reputação da África do Sul sofreu muito com as denúncias de corrupção. Construíram estádios onde não há nenhum clube. Para vocês ainda dá tempo.”
A senadora Ana Amélia (PP-RS) perguntou ao jornalista se apenas África do Sul e Brasil sofreram assédio da Fifa para modificar regras internas e, até mesmo, fazer alterações no sistema Judiciário, com a criação de tribunais, varas e câmaras especiais para julgar litígios relacionados à Copa. O jornalista respondeu à senadora com uma provocação. “Vocês são legisladores soberanos ou agem como escravos dessas pessoas? Vocês são os legisladores, então façam as leis. Que arrogância é essa da Fifa, quem é o dono do futebol?” A CBF e a Fifa não se manifestaram sobre as acusações do jornalista.
O senador Pedro Simon (PMDB-RS) pediu que as informações levantadas na reunião sejam encaminhadas à presidente Dilma Rousseff. O presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, Roberto Requião (PMDB-PR), disse que fará isso ainda esta semana. Jennings fez uma recomendação para o Brasil em relação à Copa. "Vocês não podem interferir na CBF, mas, a favor do interesse do seu país, vocês precisam tirar essas pessoas e colocar homens e mulheres limpas para organizar a Copa", afirmou.
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