Hoje, num post sobre a posição do PT a respeito da liberdade de imprensa e as críticas a ela formulada pelo presidente nacional da OAB, afirmei que Ophir Cavalcante era contra o Estado do Carajás e que estava tudo certo e coisa e tal.
Não é bem assim.
Levei um puxão de orelha doméstico, se me entendem.
"Leu direito a entrevista dele no Liberal?", perguntou D.Nega.
O tom de crítica me fez ir em busca da bendita publicada no dia 15 de agosto na versão online d'O Liberal.
A primeira leitura realmente não tinha sido esmerada e na releitura as pérolas começaram a aparecer. Não vou reproduzir a entrevista (caso queira, leia aqui).
Vou de preto. Ophir vai de vermelho.
Respondendo à primeira pergunta Ophir diz que é contra a criação do Carajás e Tapajós, mas não resiste e confessa:
"Não tenho dúvidas de que o Estado do Pará, de um modo geral, e que o Estado brasileiro, especificamente, falharam muito no atendimento das demandas que a população do oeste e do sul e sudeste do Pará sempre tiveram."
Falharam demais, doutor. Falharam tanto que não resta outra alternativa aos que moram aqui a não ser lutar para construir um novo Estado para ter acesso aos direitos que Belém sempre lhes negou.Adiante, Ophir parte para o ufanismo:
"O Estado do Pará está em franco desenvolvimento, tem tudo para ser o maior Estado da federação nos próximos dez, quinze, vinte anos (...)."
Doutor, diga como um estado "em franco desenvolvimento" pode ser campeão nacional de malária! Ah, esqueci. Tudo vai melhorar quando formos "o maior estado da federação", nos cálculos exatos do Doutor, daqui a dez, quinze, vinte, trinta, cinquenta, cem anos. Sentemos todos, pois, ao lado de Ophir e esperemos o milagre acontecer.
A seguir Ophir pisa em terreno perigoso. Ele quer discutir a legitimidade dos que pleiteiam a construção dos novos Estados. Instado pelo entrevistador ele questiona a razão do interesse de parlamentares de outros Estados na criação do Carajás e Tapajós:
"Por que os parlamentares daquelas regiões, que sempre defenderam, preferiram se 'esconder' atrás desses parlamentares, para não mostrar as suas posições? Mas o plebiscito vai ter, pelo menos isso, nesse momento: todos vão ter que assumir posições."
Bem, Doutor, talvez o senhor não saiba, mas o Projeto de Decreto Legislativo que dispõe sobre a realização do plebiscito para criação do Estado do Carajás (PDC nº 159/92) foi apresentado em 25 de março de 1992, pelo deputado federal do Pará, Giovanni Queiroz. Onde está a tentativa de "esconder" ou camuflar intenções? A segunda parte de sua afirmação esta correta: o plebiscito realmente obriga a todos na escolha de um dos lados da demanda. Existem aqueles que querem manter o poder concentrado nas mãos da auto-proclamada "elite" belenense que agora se considera "paraense" e nos chama de "parasitas"; e existem aqueles que querem construir dois novos estados para ampliar a representação da Amazônia e lutar juntos por mais recursos para a região. O senhor já fez sua escolha. Uma escolha infeliz. Não lhe gado o gosto.
Ophir a essa altura da entrevista já está totalmente fora de sintonia. Ele diz:
"A União terá que fazer estudos econômicos e financeiros, no sentido de subsidiar o funcionamento desses novos Estados por vinte, trinta anos... Não se sabe quanto."
É, Doutor, o senhor talvez não saiba, mas os estudos econômicos e financeiros já existem e demonstram que a União não precisará gastar nenhum centavo a mais com os novos Estados. Basta repartir a receita já prevista e manter os mesmos índices de investimentos federais. A própria dinâmica regional fará crescer a economia dos três Estados.
Ao final, Ophir precisa reconhecer que os belenenses não fizeram o dever de casa:
"...é muito recurso a ser destinado e, se nós destinássemos um percentual pequeno desses recursos, para diminuir essa desigualdade, essa ausência do Estado naquela região, não estaríamos falando de separatismo."
Verdade, Doutor. É recurso suficiente para construir Estados fortes, prósperos e presentes. Bem diferente do Pará de hoje, vasto, pobre e ausente. Imagine o senhor como seria a região do Carajás se ao longo dos anos os recursos de nossos impostos tivessem sido usados para fazer escolas, estradas e hospitais aqui na região! Infelizmente, as escolhas foram outras.
Belém tem o Mangal das Garças, um parque lindo, coisa fina. Ali as borboletas têm direito até a estufa com ar-condicionado. Construído em 2006, custou mais de 20 milhões de reais. Ano passado o Governo do Pará gastou a mesma quantia para manter TODA A REDE ESTADUAL DE ENSINO instalada na região do Carajás.
Doutor, o que vale mais: as borboletas ou a educação de milhares de jovens?
Foram escolhas como essas que empurraram as regões Oeste e Sudeste em direção à criação dos novos Estados. Constituir os Estados do Carajás e Tapajós servirá para desenvolver essas regiões e trazer o Estado para mais perto de uma população desassistida. Esperemos que sirva também para que os políticos de Belém revejam seus conceitos e estabeleçam novas prioridades.
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