6 de setembro de 2011

Pará, Carajás e Tapajós - Contra Carajás e Tapajós, O Globo apresenta argumentos fracos

O jornal O Globo segue como um dos mais influentes no Brasil e um dos melhores do mundo. Talvez esteja, ao lado da Folha de S.Paulo, entre aqueles que buscam oferecer maior equilíbrio entre informação e opinião. Chega algumas vezes a exagerar na importância de ouvir o "outro lado", pecadilho plenamente perdoável. Perdeu recentemente seu editor-chefe que sempre esteve à altura da importância do jornal, mas não parece ter perdido o norte.
Por tudo o que vai acima é que quando erra em uma análise ou precipita-se em firmar opinião a repercussão é imediata.
Hoje, em seu editorial O Globo posiciona-se contra criação de novos Estados e aí erra feio.
No cerne da argumentação d'O Globo está a tese de que a criação de novas unidades da federação "gera despesas ao Tesouro, logo, causa prejuízo para o contribuinte".
Para sustentar essa tese argumenta que em 88, antes da nova Constituição, havia no Brasil 4.180 municípios; hoje, apesar das restrições impostas, já são 5.564 burgos, a maioria sem condições de sobreviver sem as quotas-partes de FPM. Seriam “financiados” pelo dinheiro dos impostos recolhidos em outras regiões. Para O Globo, isso acontece com os novos municípios, logo acontecerá com os novos Estados.
As situações são tão diferentes que o argumento não seria aceito nem em mesa de botequim. Nas páginas d’O Globo, então, é pura heresia.
O editorialista deveria ter tido o cuidado de buscar números básicos para escorar sua tese. Não o fez por um motivo simples: os números existentes retratam a concentração de investimentos, empresas, escolas, empregos, leitos hospitalares e outros serviços na Região Metropolitana de Belém (percebam que não falo no Nordeste do Pará ou no Marajó; para muitos belenenses Belém é o Pará e vice-versa), enquanto o Oeste e o Sudeste precisam atender a demanda crescente por serviços públicos com recursos cada vez mais escassos.
Por outro lado, os números também mostram que Carajás e Tapajós não precisarão de recursos adicionais do Governo Federal para sua instalação. Bastam-lhes as suas próprias receitas e aquelas outras que, por determinação constitucional, todos os demais Estados recebem.
Seguindo na crítica, O Globo desdenha dos argumentos que considera centrais na campanha emancipacionista – descentralização administrativa e diferenças culturais – sem atentar que esses dois itens quando colocados lado a lado são auto-explicativos. As diferenças culturais tornam-se mais profundas na medida que as decisões e as ações do governo estadual, centralizadas em Belém, fazem uma clara opção preferencial pela capital do Estado em detrimento das demais regiões que, pejorativamente, os belenenses chamam de “interior do estado”.
Ao final, como para justificar a tese capenga, o editorialista apela para um estudo do economista Rogério Boueri, ligado ao IPEA. Esse estudo já foi devidamente contestado por técnicos do Senado Federal. Boueri somou receitas de 2008 e estimou despesas com valores de 2011, achou um déficit de 3 bilhões de reais para os dois Estados; não satisfeito aumentou o valor do déficit para 5 bilhões.
Refeitas as contas, os técnicos do Senado perceberam que, contrariando a vontade de Boueri, Carajás e Tapajós teriam de saldo algo em torno de 1 bilhão de reais para investir a cada ano.
É muito?
Nem de longe.
Mas é o suficiente para começar a construir os novos Estados. A própria construção desses novos Estados incrementará a economia fazendo aumentar PIB, renda per capita e Orçamento dos Estados. Sem inadimplência, os novos Estados terão condições de oferecer contrapartidas às parcerias que viabilizarão as obras de infraestrutura necessárias. Isso O Globo não poderá negar.
Giovanni em seu texto publicado ao lado do Editorial d’O Globo demonstra que o Pará, em função das escolhas das classes dirigentes de Belém, já está de fato fracionado. O abandono e a omissão dos belenenses fizeram o serviço direitinho. Resta agora formalizar a criação de Carajás e Tapajós para dar legalidade a uma situação legítima já existente e permitir que o desenvolvimento das três novas unidades alavanque o crescimento de toda a região Norte.
O parágrafo final do artigo de Giovanni merece ser reproduzido. “Que o Pará legal e o Pará legítimo possam se associar ao crescimento apresentado pelo Brasil como um todo e, assim, o diálogo federativo aconteça em justa proporção.”
Eis o que todos, paraenses, carajaenses, tapajônicos, brasileiros enfim, poderemos almejar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário