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| Na linda figura de Paul Klee, o perigo de rumar para o futuro com os olhos presos ao passado |
Bem , Companheiros,
De vez em quando arrisco-me a essas andanças por sítios um tanto inóspitos da internet e não raro encontro exemplos de fauna e flora diversificadas, quase sempre interessantes, mas por vezes, acabo me deparando com exotismos que merecem atenção. Foi assim quando encontrei o incrível economista que abomina números (leia aqui) ou o fabuloso professor que não sabe escrever (leia aqui). Agora encontrei o tenebroso caso do historiador mumificado (leia aqui). Perdoem se o texto ficou um pouco extenso, mas vejam, tem até algumas figuras! Peço que leiam e reflitam. Caso queiram comentem à vontade.
Não me darei ao trabalho de reproduzir a estrovenga. O link está aí e vocês poderão lê-la.
Neste caso, mais importante que o próprio texto é o espírito que o anima.
Vejam, pelo linguajar anacrônico e pelo raciocínio obtuso, que obviamente trata-se de um desses foragidos dos anos 60, um daqueles que provavelmente morrem de saudades de tempos nos quais não viveu e, mais provavelmente ainda, ligado a um desses partidinhos insignificantes da esquerda radical (aqueles que de tão radicalmente esquerdistas quase sempre são flagrados abraçados à extrema direita). Bichos exóticos como esses, sem votos ou seguidores, não teriam relevância para a discussão sobre as criação dos Estados de Carajás e Tapajós não fossem seus argumentos, de tão rasteiros, serem apropriados e reproduzidos pelos arautos do conformismo que defendem, entre nós, as elites belenenses. Os argumentos listados no texto são rigorosamente os mesmos que os belenenses usam de forma mentirosa para iludir o eleitorado da capital e tentar nos capturar nesta mesma armadilha tosca. Mas, comigo não, violão!
Resumidamente, na resenha vazada em algo que lembra a língua portuguesa, faz-se um "histórico" muito particular da ocupação da Amazônia para daí depreender que "(...) os discursos de hoje são parecidos com os do século XVI. As mesmas elites que se apropriaram e depredaram os recursos naturais e culturais da região, como se não bastasse acumular riqueza e poder, querem agora dividir o estado para colocá-lo totalmente a serviço de seus próprios interesses que agora é o agronegócio."
Claro que a auto-referência não poderia faltar. "Como filho desta região, filho de um humilde castanheiro que foi também mariscador e lavrador, vivendo hoje à custa de um auxilio-velhice oferecido pelo governo, e de uma grande mulher que foi de lavadeira a prostituta para poder sustentar os filhos, não posso concordar que mais uma vez os aventureiros enrolem novamente o povo, prometendo dias melhores com a possibilidade de um novo estado, onde na verdade o que querem é poder absoluto para crescer mais e mais os seus patrimônios e manter suas luxúrias".
Está a todo vapor o álibi do "pobrismo militante". Mas não se enganem, filho de prostituta ou não, nosso autor só tem um objetivo: combater a criação do Estado do Carajás e, objetivamente, aliar-se aos "magnatas" da capital que olham com certo prazer o áulico defender suas ideias.
| Benjamin - Contra o determinismo histórico e a busca da felicidade |
Aqui uma pausa é necessária.
Imaginem-se em Paris, no mês de março de 1940. Os tanques nazistas e soldados à passo de ganso deixam claro quem é que manda na Cidade Luz.
Ali morava Walter Benjamin. Contava então 48 anos, e sendo judeu alemão, vivia a tensão permanente do fugitivo que a cada quarteirão olha por sobre o ombro. Mesmo assim Benjamin escreveu naquele ano As Teses Sobre o Conceito da História. Morreria durante a fuga da França ocupada, em setembro do mesmo ano.
Publicadas em março daquele ano, as Teses até hoje nos dão o norte necessário para compreender (e a partir da compreensão, construir) nossa própria história.
O que diz Benjamin de tão relevante?
Ele primeiro mostra que não basta o historicismo tradicional, baseado apenas nos "grandes vultos da pátria" ou nos "maiores eventos da história". Esta forma de ver a história subtrai a participação dos homens reais, e seu cotidiano às vezes prosaico, porém muitas vezes decisivos nas grandes transformações sociais.
Ele combate também o marxismo tradicional que vê a história como uma espiral na qual cada volteio representa um passo a mais em direção ao "paraíso dos proletários" (hoje, substitui-se "proletários" por "excluídos"). Esta visão determinista da história retira dos homens seus desejos, paixões e principalmente, a possibilidade de construir o "novo" a cada dia.
Benjamin propõe algo diferente. Ele quer olhar o passado com os olhos do futuro para poder construir no presente os marcos que nortearão a construção de uma sociedade em permanente mutação.
Benjamin como desdobramento do seu pensamento, de forma brilhante e definitiva, interpreta a linda gravura de Paul Klee ("Angelus Novus"), referida por Benjamin como o "Anjo da História" que ilustra esta postagem.
| Paul Klee (1879-1940) |
De volta à Carajás e Tapajós
Perceberam como a visão atrofiada da história induz nosso bravo defensor das elites belenenses ao mais terrível conformismo?
"Sempre foi assim e sempre será!" é o supra-sumo de sua posição.
Nós precisamos dizer que, ainda que "sempre" assim tenha sido, nada garante que "sempre" assim será. A maior vitória que os belenenses podem alcançar é nos fazer crer que a criação do Estado do Carajás beneficiará "apenas a elite da região". Isso mascara o fato de que A ELITE DESTA REGIÃO (E DE TODAS AS OUTRAS) JÁ É EXTREMAMENTE BENEFICIADA. Por isso são ELITES. O que sabemos é que COM A CONSTRUÇÃO DO NOVO ESTADO PODEREMOS TODOS SER BENEFICIADOS. VAI DEPENDER DE TODOS, E DE CADA UM, DISPUTAR OS ESPAÇOS DE INFLUÊNCIA E DE PODER ESTADUAL QUE HOJE JÁ ESTÃO OCUPADOS PELA ELITE BELENENSE OBJETIVAMENTE DEFENDIDA POR QUEM, PELO MENOS NA APARÊNCIA, DEVERIA COMBATÊ-LA.
Dou como exemplo a recente vinda de Jatene a região de Carajás para espalhar entre nós "espelhinhos" e "miçangas". Claro que as filas formadas para receber óculos e muletas refletem nosso atraso. Mas reflete também a necessidade de termos um Estado capaz de mitigar a miséria e induzir o crescimento social e o desenvolvimento econômico, únicos remédios capazes de curar essa chaga social que recebe o nome de "desigualdade".
Ainda que Carajás não significasse nenhum outro avanço, o simples fato de termos um Governo de Estado próximo de nós já seria razão suficiente para defendermos a construção deste novo Estado.
Serão as tensões (políticas, sociais, econômicas, culturais, etc) que definirão os rumos do novo Estado. Não podemos, por conta do medo do futuro e de uma visão estreita e determinista da história, nos negarmos o direito de tentar construir algo novo.
Não acredito na história como um mausoléu. Muito menos como um "Jardim do Éden". Entendo a história como um interminável rosário de fatos e escolhas (individuais e coletivas), que forjam ou destroem civilizações, países, estados, cidades, vidas, enfim.
Acredito que o passado nos sirva de exemplo, jamais como delineador de nosso "destino".
Acredito que o único destino humano é a felicidade e na busca por essa tal felicidade não podemos ter medo de mudar, transformar o mundo e para isso precisamos transformar a nós mesmos no cotidiano às vezes tido como banal (mas, como viver poderia ser banal?).
A face do "anjo da história" precisa ser voltada para a frente, capaz de perceber as dificuldades e, principalmente, as possibilidades que o futuro nos oferece.
Viver o presente com os olhos permanentemente fixados no passado nos impede de construir o futuro.
Aqueles que olham apenas para trás viram "estátuas de sal", mumificam-se.
Construir Carajás e Tapajós não será a panaceia que nos livrará de todos os males. Será apenas o primeiro passo rumo a um futuro incerto, como tudo na vida. Mas, a partir desta construção todos, inclusive os defensores das elites belenenses entre nós, terão a chance de tomar em suas mãos seus próprios destinos.
E o futuro?
Bom, o futuro pertence aos homens e mulheres que no seu dia-a-dia não têm medo de construir o presente, tendo o passado como exemplo, mas com os olhos repletos de esperança e fé.
Bom domingo a todos!

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